O Grupo 1 Edição Digital Grupo 1 Mobile Fale Conosco
Receba nossas notícias

24/05/2018

Moradores preservam quadrilátero onde o tempo parou em Pinheiros

Publicado em 12/04/2018

Tombamento dos predinhos da Hípica e conservação de paralelepípedos estão entre as iniciativas tomadas pelos moradores

Predinhos foram construídos nos anos 50 e ainda preservam clima da época / Grupo 1 de Jornais

Por Diego Gouvêa

Próximo à agitada Rua Teodoro Sampaio, alguns quarteirões formados por pequenos prédios de dois andares remetem à São Paulo dos anos 50. Cercado por ruas arborizadas, esse conjunto de edificações baixas esteve ameaçado nas últimas décadas pela especulação imobiliária e pelas empresas de serviços públicos, que eventualmente substituem os tradicionais paralelepípedos por asfalto. Porém, a mobilização de moradores tem evitado que esse quadrilátero seja descaracterizado ao longo do tempo. 

Conhecidas como “predinhos da Hípica” pelos moradores e vizinhos, as edificações estão localizadas no perímetro formado pela Avenida Pedroso de Moraes e pelas ruas Teodoro Sampaio, Mourato Coelho e Artur de Azevedo. A maioria dos imóveis é de perfil residencial, mas em alguns deles funcionam escritórios. Já no trecho da Teodoro Sampaio a parte térrea é ocupada por lojas e, nos andares superiores, há também apartamentos residenciais.

O conjunto foi projetado por Felix Dabus, filho do imigrante libanês Raduan Dabus, que adquiriu lotes da antiga Hípica Paulista após sua transferência para Santo Amaro. Nesta época, algumas regiões da cidade, como Pinheiros, começavam a mudar de perfil rural para urbano.

A maior parte dos pequenos edifícios é separada da rua por portões baixos e muretas, fazendo com que os apartamentos do térreo sejam praticamente duas casas, pela proximidade com a calçada. Entre a fachada e os portões, há jardins bem cuidados pelos moradores. Seguranças de terno, comuns em prédios residenciais de alto padrão em bairros nobres, não são vistos em frente aos antigos Predinhos da Hípica.

Edificações estão localizadas no perímetro formado pela Avenida Pedroso de Moraes e pelas ruas Teodoro Sampaio, Mourato Coelho e Artur de Azevedo“Andar a pé e morar em espaços como este nos faz ser integrados ao ambiente e proporciona uma sensação de cidade sem muros”, afirma o arquiteto e urbanista Nadir Mezarani, que tem uma parte da vida ligada ao local. Foi no quadrilátero dos predinhos que ele conheceu a sua esposa, que morava na Rua Benjamin Egas, e onde seu irmão Samir residiu até a década de 80, na Rua Navarro de Andrade.

Porém, no início dos anos 2000, os moradores começaram a temer os avanços do mercado imobiliário. O receio se tornou maior principalmente após a construção, na Rua Simão Álvares, de um arranha-céu estilo neoclássico cercado por muros, perfil arquitetônico distinto em relação aos imóveis do entorno. O empreendimento foi erguido em meio aos quarteirões dos predinhos e sobre uma área livre, onde antes existia uma pequena praça. “Ali era onde a molecada fazia fogueira e jogava futebol, em terra batida que drenava as águas da chuva”, conta Mezarani.

Para evitar que o quadrilátero fosse descaracterizado, alguns moradores conseguiram junto à Prefeitura de São Paulo a inclusão dos predinhos na lista de áreas classificadas como Zona Especial de Preservação Cultural (Zepec), de acordo com a lei de zoneamento de 2004. Além dessa reivindicação, na mesma época foi registrado um pedido de tombamento das edificações ao Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo).

Passada mais de uma década, o órgão municipal emitiu, em janeiro deste ano, parecer favorável à preservação dos imóveis. “Compreende-se, dessa forma, que estes edifícios representem de uma maneira destacada o processo de modernização do bairro de Pinheiros, em seu flagrante processo de desenvolvimento urbano”, justifica em nota o Conpresp.

Asfalto x paralelepípedos

A notícia do tombamento foi recebida com alívio por boa parte dos moradores, mas ainda não garante a preservação total do perfil urbanístico local. Se, por um lado, os edifícios estão protegidos pela legislação, por outro, mais itens que remetem à São Paulo antiga correm o risco de desaparecer. É o caso dos paralelepípedos do quadrilátero em Pinheiros, por exemplo. 

Na madrugada da última sexta-feira (6), equipes do programa Asfalto Novo da Prefeitura tinham no seu roteiro de serviço um trecho da Rua Simão Álvares, via pavimentada com os blocos de pedra e que corta os quarteirões dos predinhos. O trabalho estava programado no trecho entre a Teodoro Sampaio e a Rua dos Pinheiros.

Paralelepípedos são substituídos constantemente pelo asfalto por empresas municipais e concessionárias / Grupo 1 de Jornais  A execução do serviço surpreendeu os moradores, pois o ex-prefeito regional Paulo Mathias havia garantido, antes de deixar o cargo neste mês, que a aplicação de asfalto não compreenderia o quadrilátero. “Achamos que os paralelepípedos estavam garantidos aqui, mas qual não foi a nossa surpresa quando minha funcionária me ligou dizendo que a rua estava sendo asfaltada”, conta Verônica Bilyk, proprietária do restaurante polonês Polska295, na Simão Álvares.

Ao tomar conhecimento da ação, a vizinhança interrompeu o trabalho das máquinas por volta da meia-noite. Uma moradora de uma rua vizinha permaneceu no local até as 2h esperando os veículos da Prefeitura se retirarem.

Já na última segunda-feira (9), um grupo de moradores teria sido chamado pela nova prefeita regional de Pinheiros, Juliana Ribeiro, para conversar sobre o ocorrido. Segundos eles, houve falha de comunicação entre os departamentos da administração municipal, e o asfalto aplicado no início do serviço será removido da Simão Álvares.

Segundo os moradores, a reposição dos paralelepípedos é benéfica para o entorno não só pela questão estética, mas também por reduzir a velocidade dos carros, melhorar a permeabilidade do solo e não elevar a temperatura ambiente, como ocorre nas ruas asfaltadas.

Mão de obra para reinstalar os blocos de pedra é cada vez mais rara na cidade / G1JA substituição dos paralelepípedos por asfalto ocorre com frequência nas ruas que circundam os predinhos, em serviços realizados pelas equipes da Prefeitura ou por concessionárias. Na maioria das vezes, a justificativa para a não reposição dos blocos é a falta de mão de obra especializada e a maior rapidez para fechar a abertura do solo com asfalto.

No entanto, em alguns casos, a recolocação dos paralelepípedos é feita pelas próprias empresas que prestam serviços públicos. Em 2016, a jornalista e moradora Fabiana Badra solicitou o reparo dos paralelepípedos que haviam sido retirados durante trabalhos da Sabesp na Rua Navarro de Andrade, e foi atendida. “Os moradores das outras ruas também se interessaram pelo trabalho e vieram falar comigo para perguntar como é possível solicitar a reforma”, conta.

Verônica Bilyk se juntou a moradores para preservar quadrilátero dos predinhos / Grupo 1 de Jornais  Associação

Apesar de já se organizarem e comentarem assuntos relacionados à preservação do quadrilátero em uma página no Facebook (Comunidade dos Predinhos da Hípica Paulista), os moradores pretendem criar uma associação com o objetivo de ter maior representatividade junto aos órgãos públicos.

Por meio da entidade será feito um mapeamento dos edifícios, das condições do pavimento das ruas e de outras características locais. “Pretendemos fazer um diagnóstico das árvores por meio de um mapeamento a fim de catalogá-las”, afirma Verônic Bilyk, que apesar de morar no Jardim Paulista se envolveu com a mobilização dos moradores.

“Assim que eu abri o restaurante, percebi uma sensação positiva dos vizinhos, com um bom clima de comunidade”, conta Verônica. Com o passar do tempo, o restaurante se transformou em um pequeno espaço de convívio da vizinhança e, a partir daí, ela decidiu se envolver na mobilização. Foi neste momento que, em meio a conversas, a associação foi idealizada.

Nas próximas semanas, a entidade deve ser formalizada juridicamente, mas já conta com grupos de trabalho definidos para atuar nas questões de tombamento, pavimentação, segurança e manutenção das árvores. Quanto aos paralelepípedos, a futura associação vai estudar meios para preservá-los, como o apoio de possíveis patrocinadores ou a colaboração voluntária dos próprios moradores.

 

 

FECHAR

 
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
 
         
     


Gastronomia

Colunistas

Tecnologia