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18/11/2017

É possível confiar na história?

Publicado em 08/09/2017

Na história muito se comenta sobre as diferentes versões

Na história muito se comenta sobre as diferentes versões do Grito da Independência. O famoso quadro de Pedro Américo apresenta um Dom Pedro I heroico, em fardas militares e com um exército à disposição. Porém, historiadores afirmam que as circunstâncias foram outras.

Releituras da história acontecem. Vivemos em uma época que comenta muito o conceito de fake news. Como identificar a melhor fonte para confiar em uma história? Como saber o que de fato aconteceu?

A Gazeta de Pinheiros – Grupo 1 de Jornais conversou com Diogo Rais, coordenador do programa de Combate às Fake News e professor do curso de Direito do Mackenzie, que comenta: “a história do Grito da Independência, do quadro do Pedro Américo, fica linda retratada no Museu do Ipiranga, mas os historiadores dizem que foi bem diferente. É fake news, ou não? E o quanto isso pode ter prejudicado a história?”.

Gazeta de Pinheiros – Muitos fatos têm sido apresentados de formas diferentes, muitas vezes antagônicas. Como se prevenir das fake news?

Diogo Rais - Ao mesmo tempo em que a gente teve uma ampliação das fontes de informação e da propagação dessa informação, temos dificuldade da veracidade. Mas isso não quer dizer que a mentira foi inventada agora. A amplificação disso e as dificuldades de encontrar a verdade talvez tenham feito a gente entrar em um rol mais difícil do que antes. Não que isso não existisse, mas a forma como está sendo colocada hoje talvez tenha possibilidade de produzir mais impacto.

E talvez esse ponto passe ainda por outra transformação. Tem hora que é muito fácil medir a verdade: há questões objetivas. Porém, às vezes, há questões mais difíceis. É nessa área cinzenta que a coisa se complica. Não é só na mentira. A grande questão da fake news não é a mentira; é parecer verdade. A fake news é aquilo que parece verdade, mas é mentira.

E nesse momento em que falamos da coleta da história, sempre tivemos grande dificuldade em saber qual a verdadeira história daquele momento. Nós precisamos conviver com essa pluralidade de pontos. E me parece que hoje é mais difícil. Não porque antes não existisse, mas talvez porque tivéssemos mais dificuldade de comprovar. Eu lembro que cresci na escola aprendendo sobre o descobrimento do Brasil e, quando cheguei ao doutorado, colegas da história me contaram que não é nada daquilo. Ou seja, fake news desde 1500.

O que mudou? A quantidade de pontos de informação, a propagação, o impacto e a amplificação. Mas o grande ponto entre a verdade e a mentira ainda é o mesmo de muito tempo atrás.

GP – Quais os canais mais legitimados de informação? Qual o papel da imprensa nesse cenário?

DR - Está na hora de rever os papéis de cada um na divulgação de notícias. Eu acho que a imprensa tem papel muito forte nisso, e talvez encontre nesse lugar a sua mais forte razão de existir. Em minha opinião, talvez não pela existência da informação, mas por sua curadoria. Parece-me que a liberdade de expressão caminha nesse sentido.  

A diferença das redes sociais e de todo o cenário digital é que se abre um canal para todos falarem. E essa abertura talvez possa chegar aonde a imprensa nunca chegou. Muitos locais ficam esquecidos da grande mídia. Assim, você tem a possibilidade de grupos locais cuidarem e terem direito de informação personalizado, como nunca tivemos. Acho que a grande diferença não está na questão dos atores envolvidos, mas na responsabilidade e seriedade com que isso vai ser levado adiante.

Assim, a imprensa tem papel fundamental no sentido de jogar luz sobre os temas. E agora esse papel se aprimora ainda mais: que é fazer uma curadoria, trazer uma série de críticas das questões. Parece-me que a imprensa passa por essa evolução, que é o que se alinha com a liberdade de expressão da imprensa em nosso país. Parece-me que ela encontra mais um motivo para sua existência.

GP - Como o papel da imprensa auxilia na construção da história?

DR - É fundamental o papel da imprensa na construção da história. Se há uma grande vantagem, é ela poder contar em tempo real. E isso é muito importante. Quando a gente tem a análise da história com os olhos em outro tempo, não conseguimos, às vezes, enxergar. Um exemplo: ao ouvir as histórias que a minha mãe conta, com uma diferença de idade de cerca de 30 anos, eu já a julgo e penso em como aceitou tais coisas. Só que na época dela não havia opção. Então, quando conta as histórias, ela está com um pé na história. E a imprensa tem isso, ela conta a história em tempo real.

Por contar a história em tempo real, ela faz isso com maior possibilidade de isenção do que muitos outros mecanismos. Quando eu olhar isso no futuro, vou olhar com os olhos no tempo de hoje. Quando estou com os pés fincados em outro tempo, analisar o tempo antigo talvez seja uma covardia. Não estou falando da ciência, mas da parte documental. Então, [a imprensa] é fundamental para a construção de uma memória atual e local.

GP - Como desfazer os possíveis danos da fake news?

DR - Hoje em dia é muito mais difícil destruir um boato ou uma fake news. A gente precisa de adesão voluntária; é difícil fazermos frente. Bons mecanismos para evitar a divulgação de fake news, ou para retratá-las, são os fact checkers, agências que procuram passar um pente fino para descobrir a verdade de um fato. Só que não é um trabalho simples.

Existem muitos sites para consultar, mas todos dependem da participação ativa da população que queira brigar com a fake news. Por isso é tão importante a educação digital.

GP - Como a fake news entra na construção da história?

DR - A cada momento da história aprendemos a lidar com fake news de um jeito diferente: quando era só um boato; quando não passava de fofoca em uma vila; quando se transforma em algo grande; e quando pode provocar danos, como vem ocorrendo. A história do Grito da Independência, do quadro do Pedro Américo, fica linda retratada no Museu do Ipiranga, mas os historiadores dizem que foi bem diferente. É fake news, ou não? E o quanto isso pode ter prejudicado a história?

Ou seja, já convivemos com isso. Acho que vivemos em uma era na qual é mais possível descobrir e mais fácil disseminar.

 

 

Rodrigo Luiz Pakulski Vianna

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