O Grupo 1 Edição Digital Grupo 1 Mobile Fale Conosco
Receba nossas notícias

25/05/2018

O Brasil foi descoberto em 22 de abril?

Publicado em 23/04/2018

O dia 22 de abril marca a chegada das caravelas portuguesas às terras hoje conhecidas como Brasil

O dia 22 de abril marca a chegada das caravelas portuguesas às terras hoje conhecidas como Brasil. Assim a história é escrita. A busca por especiarias ganhava novos desenhos e a dominação da coroa de Portugal se iniciava. Para saber um pouco mais sobre esse capítulo da nossa história, a Gazeta de Pinheiros – Grupo 1 de Jornais conversou com Amilcar Torrão Filho, doutor e chefe do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Gazeta de Pinheiros - É correto falarmos em descobrimento do Brasil?

Amilcar Torrão Filho - O termo “descobrimento” foi questionado no final do século passado, próximo às comemorações dos 500 anos, por desconsiderar a presença dos ameríndios, para quem a América não tinha que ser descoberta. Preferiu-se tratar de “achamento”, termo mais comum em Portugal do que no Brasil. De toda forma, do ponto de vista de portugueses e ameríndios tratou-se de descobrir-se mutuamente, com resultados quase sempre trágicos para os segundos. A historiadora norte-americana Patricia Seed (Cerimônias de posse na conquista europeia do Novo Mundo (1491-1640))  trata como descobrimentos as técnicas portuguesas que permitiram navegar o Atlântico Sul e, por conseguinte, alcançar o Brasil, a costa ocidental do sul da África e o Oceano Índico. O termo “conquista” dá mais a dimensão do que foi a ocupação da América pelos europeus e o descobrimento do Outro que habitava o Novo Mundo.

GP - Havia indícios das terras brasileiras antes da chegada dos portugueses? Como foi decidida a rota?

ATF - Dada a facilidade de se perder nas fortes correntes marítimas ou nos ventos do Atlântico Sul, não é absurdo pensar que a esquadra de Cabral tenha sido trazida por acaso às costas americanas. A rota é uma só: navegar em ziguezague para não cair nas correntes atlânticas. Daí a importância da caravela, com velas triangulares que se movem facilmente, e da trigonometria, para calcular os ângulos das curvas realizadas pelas embarcações. A probabilidade de haver terras desconhecidas, essa sim era concebida pelos navegadores. Na carta de Mestre João Faras, o cosmógrafo real, que dá a notícia ao rei do encontro dessas terras, o autor não demonstra surpresa pela descoberta. Parecia uma possibilidade já concebida por ambos, mas não podemos afirmar com certeza que a esquadra foi desviada com o intuito de buscar essas terras. Havia o risco de que elas não tivessem nenhuma utilidade, enquanto chegar à Índia era um empreendimento com muito retorno.

GP - Por que a data não é um feriado nacional?

ATF - Não saberia dizer, mas arrisco que seria uma competição com a outra data nacional, o 21 de abril, entendida como mais genuinamente brasileira por tratar de um herói brasileiro que teria lutado contra a opressão colonial. De qualquer forma, na América espanhola e na Espanha não se entende muito bem por que no Brasil temos uma data de “descobrimento” separada do “descobrimento” geral da América por Colombo, em 12 de outubro. Como não pode ser data de “descobrimento” propriamente dito, nem de construção da nação, o 22 de abril acaba ficando numa posição secundária.

GP - Em que contexto internacional Portugal se encontrava em 1500?

ATF - De domínio das grandes navegações, mas já experimentando um declínio, sobretudo depois da chegada de Colombo à América. Depois de ter dominado os mares sem ser ameaçado por ninguém, por conta de seus avanços na arte da navegação, Portugal passa a sofrer o assédio de outras Coroas que competem pela conquista dos mercados ultramarinos. A conquista da América coincide, ainda, com uma necessidade de expansão da fé católica, assediada na Europa por muçulmanos e protestantes.

GP - Quem era Pedro Álvares Cabral e por que foi escolhido para liderar as naus?

ATF - Sua biografia não difere da de outros navegadores da época: era um fidalgo, treinado como outros fidalgos para a guerra e a navegação. Há poucos dados biográficos sobre ele e não parece haver um motivo especial, além de sua origem, para definir sua escolha como comandante da expedição que chegou à América. Se ele é importante para nós, em Portugal não deixa de ser um navegador a mais, sem a importância de Vasco da Gama, por exemplo.

Por Rodrigo Luiz Pakulski Vianna

FECHAR

 
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
 
         
     


Gastronomia

Colunistas

Tecnologia