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25/05/2018

Tiradentes é um dos símbolos da nação

Publicado em 23/04/2018

Joaquim José da Silva Xavier foi transformado em um dos principais símbolos da República brasileira

Joaquim José da Silva Xavier foi transformado em um dos principais símbolos da República brasileira, e seu envolvimento com a Inconfidência Mineira e as circunstâncias de sua morte lhe deram ares de lenda. A Gazeta de Pinheiros – Grupo 1 de Jornais conversou com o professor Amilcar Torrão Filho para saber um pouco mais sobre essa figura nacional.

Gazeta de Pinheiros - Quem foi Joaquim José da Silva Xavier?

Amilcar Torrão Filho - Um militar e proprietário de terras, o mais eloquente dos inconfidentes, segundo o historiador João Pinto Furtado (O manto de Penélope. História, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9). Ou seja, aquele que mais propaganda fazia da insatisfação das elites de Vila Rica em relação à Coroa portuguesa, inclusive em bordéis e tabernas. Mais do que uma anedota, isso indica como o alferes Xavier propagandeava suas ideias de revolta, o que explica de alguma maneira ter sido o único executado pela repressão da Coroa portuguesa. A indiscrição era ainda mais perigosa do que a rebelião, na medida em que a propaganda do descontentamento podia gerar insatisfação e revolta entre os mais pobres, os escravos, libertos, grupos marginalizados que tinham que ser mais controlados e cuja rebelião era vista com mais medo do que a das elites, como era o caso da Inconfidência Mineira de 1789.

GP - Qual foi a sua importância para a Inconfidência Mineira?

ATF - Provavelmente conduziria a divulgação e a condução da ofensiva militar se a Inconfidência tivesse sido levada a cabo. Foi um dos principais responsáveis por sua divulgação e pela repressão que se abateu sobre os inconfidentes.

GP - Quais eram os reais objetivos da Conjuração Mineira?

ATF - O movimento era caracterizado por uma grande heterogeneidade social e econômica, sem uma forte coesão ideológica em torno de um projeto de nação definido. Era uma síntese de tendências e tradições diversas. Cada inconfidente tinha uma formação intelectual própria e interesses específicos. Havia vários projetos envolvidos.

A definição ideológica do levante – se seria revolucionário, reformista ou regenerador – só seria possível com a sua ocorrência efetiva, o que não aconteceu. Se ele tivesse ocorrido, as forças políticas envolvidas teriam que disputar espaço e os projetos, ou projeto, com mais força seriam levados adiante. Provavelmente uma síntese de várias ideias que circulavam no século 18.

Os inconfidentes oscilavam entre o desejo de uma rebelião nos moldes tradicionais do ultramar português, quando grupos de elite se revoltavam contra alguma autoridade, como um governador, em nome da restauração da autoridade do Rei e do Bom Governo, e o modelo republicano, com planos de separação da metrópole inspirados na independência das Treze Colônias da América do Norte. Entretanto, não defendiam até as últimas consequências o desejo de uma república representativa. Enquanto alguns queriam grandes reformas, outros só desejavam a suspensão da derrama, a cobrança dos impostos atrasados, uma das causas da insatisfação das elites de Vila Rica. Cabe lembrar que a Revolução Francesa não era de conhecimento dos inconfidentes, apesar de alguns deles estarem familiarizados com os filósofos franceses, como Montesquieu ou o abade Raynal.

GP - Por que ele foi transformado em símbolo nacional?

ATF - A constituição da Inconfidência Mineira como momento inaugural da nação, criador de identidade, suposto marco da defesa dos ideários liberais na colônia, de valores republicanos, prefiguração da nacionalidade brasileira, com o culto à figura de Tiradentes com objetivos cívicos, foi obra do governo republicano. Para se diferenciar da monarquia recém-deposta, os republicanos buscaram na Inconfidência um movimento nativista e libertário ao qual se vincular. Daí a criação do mártir Tiradentes, cujas imagens remetem a Cristo e cujo corpo despedaçado representa o próprio território brasileiro, como no famoso quadro de Pedro Américo. Toda nação precisa de um mártir e de um libertador e, como D. Pedro I não podia mais ser aceito como nosso libertador, buscou-se em Tiradentes essa personagem. Daí a ironia tão carioca de nomear como Praça Tiradentes, no centro da cidade, o local onde se encontra uma estátua equestre de Pedro I, o neto de Maria I, que havia ordenado a morte do inconfidente. Uma memória republicana que se sobrepõe a uma memória monárquica.

GP - É possível traçar um paralelo entre os movimentos republicanos da época e a atual fase da democracia brasileira?

ATF - Não. Nenhum dos inconfidentes chegou a formular um projeto democrático e republicano, nem próximo da democracia representativa escravocrata dos Estados Unidos, talvez o projeto democrático mais avançado daquele momento. Talvez o paralelo seja exatamente este, de que as elites brasileiras jamais formularam um projeto democrático e inclusivo e, quando algo parecido foi instituído, ainda que de forma muito tímida pelos governos lulistas, a reação foi imediata e violenta, colocando em cheque atualmente a própria viabilidade do sistema democrático no Brasil.

 

 

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