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26/07/2017

Os efeitos das drogas podem ser irreparáveis

Publicado em 06/07/2017

Não é apenas o crack que causa preocupação nas famílias. O uso de drogas, desde as mais comuns, como maconha, até as mais pesadas, como heroína, está disseminado na sociedade

Não é apenas o crack que causa preocupação nas famílias. O uso de drogas, desde as mais comuns, como maconha, até as mais pesadas, como heroína, está disseminado na sociedade. Mesmo o álcool, sempre presente, pode causar danos irreparáveis, e não apenas a quem consome.

Como perceber que alguém precisa de ajuda? Como abordar o assunto sem afastar pessoa? O que fazer nessa situação?

A Gazeta de Pinheiros – Grupo 1 de Jornais conversou com exclusividade com Marcelo Ribeiro, diretor técnico do Cratod (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas), órgão do Estado de São Paulo.

Usuários de crack em praça entre as avenidas Dr. Arnaldo e Paulista / Grupo 1 de Jornais

Gazeta de Pinheiros - Como deve ser o cuidado das pessoas com os usuários de drogas?

Marcelo Ribeiro - Hoje em dia a gente fala que é preciso ter uma linha de cuidado para atender os usuários em todas as fases da recuperação. Você precisa pensar tanto no cara que está usando e não quer parar, por mais desmotivado que esteja, quanto no mais motivado, que quer deixar de usar, já chega sem usar drogas e quer continuar assim. Então, você precisa reunir uma série de políticas que combinem ações de redução de oferta, de demanda e de danos para compor um menu que se adeque melhor àquela pessoa. Essa é a ideia.

É que nem você pensar em um grupo de pacientes diabéticos: você tem desde o cara que está mandando ver no açúcar, na gordura e não está nem aí, com o pé diabético, até o cara que está fazendo ginástica, comendo alimentos saudáveis, largou o açúcar e que vai viver mais do que eu e você. E, no meio disso tudo, milhares de possibilidades.

E o que os estudos mostram hoje em dia para qualquer doença crônica, seja ela diabetes ou uso de drogas, que é uma doença crônica do cérebro? Quem está em tratamento está melhor do que quem não está. Em primeiro lugar, o que é muito valorizado hoje em dia é esta ideia: que a pessoa esteja exposta a algum tratamento considerado metodologicamente eficaz. E aí você tem mil e uma combinações.

GP - Quais seriam esses tratamentos?

MR - Existe uma gama deles. Todo mundo que inicia um tratamento com o intuito de deixar de usar drogas precisa passar por um período de desintoxicação e, depois, por um tratamento de manutenção. Isso pode acontecer em diversos ambientes e diversas linhas.

Você pode ter uma abordagem psicanalítica, que vai acompanhar essa pessoa mais especificamente na fase da desintoxicação e depois evoluir para sessões mais espaçadas, você pode ter uma abordagem mais comportamental...

O que estou tentando dizer é: não tem um tratamento específico. Não tem uma linha melhor que a outra. Mas existem etapas tradicionais. Hoje em dia a gente divide o tratamento em três grandes fases.

Tem a fase de adesão, quando a pessoa vem buscar ajuda, mas não sabe se quer ficar ou não. Então, você precisa de uma série de estratégias motivacionais para ajudá-la a ficar e entrar em tratamento. Tem a segunda fase, que a gente chama de “fase de oferta do tratamento propriamente dito”, na qual o método de tratamento vai ser oferecido e o paciente vai aderir a ele, seja qual for: comportamental, grupo de Narcóticos Anônimos, redução de danos... E tem a fase do encaminhamento. Porque aquilo que você vai oferecer tem dia e hora para acabar. Hoje, a gente considera que a dependência química é um grande tratamento composto por vários pequenos tratamentos. Inicialmente, é mais importante desintoxicar, mas um mês depois não faz mais sentido; precisa partir para ações de estabilização, por exemplo. Tem um mosaico de possiblidades que você vai montando de acordo com a necessidade do paciente.

GP - Quando as famílias percebem a existência de um usuário em casa, como proceder?

MR - Existem vários tabus. Eu acho que a família deve chegar da maneira mais humanizada possível. O que significa isso? Demonstrando preocupação, não tendo nenhum pudor em assumir para quem tem o problema que ela não conhece nada sobre o assunto, que precisa se informar junto a ele. Não ter nenhum formalismo em dizer: “Vamos procurar ajuda, você precisa ir com a gente, queremos te levar, estamos preocupados”.

Eu costumo dar o exemplo do ganho de peso, pois as situações são muito semelhantes. A região do cérebro de quem lida compulsivamente com a alimentação é a mesma da dependência química. Então, a família deve abordar o dependente químico da mesma maneira que abordaria alguém que está excessivamente magro ou acima do peso: “Olha, a gente está preocupado, achamos que você mudou, queremos ouvir um profissional, não sabemos o que fazer, nessa situação não dá mais para ficar”. É importante a família se aproximar verdadeiramente.

GP - Como tocar no assunto em família?

MR - A conversa tem que ser inclusiva. O tema da dependência química não permite a nenhum dos lados a ingenuidade de polarizar. Ninguém é dono da verdade, cada um tem seus argumentos, seus pontos de vista.

Como profissional de saúde, é importante que eu traga a questão de que o uso dessas substâncias não é seguro, de que há riscos importantes, problemas, e ver como isso impacta e como a conversa vai se desdobrando.

Você não pode ter medo de dizer que o uso de substâncias é uma coisa realmente séria, que impacta a vida, que pode trazer riscos, que, dependendo da extensão, pode ser irrecuperável. Não é uma coisa relacionada exclusivamente à pobreza, relação social ou maus tratos, apesar de esses serem fatores de risco. Ela pode atingir qualquer um. E precisa ser tratada com serenidade, para além de discursos maniqueístas. Quando a pessoa está dependente, não existe esse negócio de “guerra às drogas”, ou qualquer outro discurso. É como na cardiologia: quando o cara enfarta, você precisa desobstruir a aorta. Depois você dá recomendações para que aquilo não aconteça de novo.

Quais comportamentos atípicos as famílias devem cuidar, não só com o crack, mas também com outras drogas?

MR - É importante considerar que, independentemente da droga, a síndrome de dependência pode se instalar em qualquer indivíduo, de qualquer classe social e etnia. Toda substância que é capaz de atuar no sistema de recompensa do sistema nervoso pode causar dependência. Portanto, dependência é uma doença do cérebro, e pode ser por qualquer substância. Acho que, nesse sentido, não importa a substância, depois que ela se instalou.

Como a gente percebe que isso está acontecendo? Em primeiro lugar, a substância vai ganhando importância em relação ao que antes era valorizado pelo indivíduo. Quem tem mais intimidade começa a perceber isso mais cedo. Começa a haver um distanciamento, mudanças no padrão de comportamento da pessoa. Geralmente há tolerância com a substância, então a pessoa começa a usar mais.

Se você reparar, o álcool é algo que as pessoas percebem logo. A pessoa tá na faculdade e toda balada “enfia o pé na jaca”. Na maconha, na cocaína, começa a usar com um grupinho de amigos e dentro de algumas normas: “Ah, vamos fumar um para ouvir e ficar discutindo jazz”. Os caras vão cheirar e ficar assistindo futebol, por exemplo. O dependente começa a sair da curva. Ele quer chegar e cheirar três antes do jogo, e continuar cheirando. Ele não assiste mais ao jogo, fica andando pela casa. Os próprios amigos já falam: “Com o ‘João’ não dá mais”. A pessoa vai transformando o uso. O uso vai ficando mais importante que tudo mais. Além do comportamento compulsivo, da tolerância. E, um pouco mais adiante, ela começa a ter sintomas de desconforto quando diminui a dose. A partir desse momento, já existe um reloginho biológico que, sempre que a substância diminui no sangue, tem fissura, vontade, os comportamentos de busca são ativados. Aí, você tem um cara funcionando mais para a substância do que para as coisas que ele valorizava antes. Agora estou falando de dependência. Não importa a substância, essa pessoa precisa de ajuda a partir do momento em que entende que precisa voltar a dizer “não” e que precisa ter pessoas ajudando a pôr esse “não” em prática. Esse é o tratamento da dependência, grosso modo. Quanto à linha que você vai escolher para colocar em prática – se vai ser um modelo mais médico, mais híbrido, com espiritualidade, com terapia –, cada um pode desenhar a sua dentro do que existe de comprovadamente eficaz.

GP - Os programas Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos trazem contribuições?

MR - Trazem! Se você for tentar aplicar uma coisa só para tudo, você vai ver o que vai funcionar. O AA e o NA oferecem um tipo de apoio. Eles oferecem grandes coisas, como o ambiente de não uso, que para quem está deixando as drogas é importante.

Você imagina uma pessoa que bebeu por 20 anos, usou maconha ou cocaína por 25 anos. Todos os amigos estão lançados ao uso, os parentes já querem não saber dele. Para essa pessoa, ter um lugar para falar sobre droga, que é o único assunto na cabeça dela, falar do uso, encontrar pessoas que estão na mesma situação, formar uma corrente para frente, é muito importante.

E, é claro, vai ser mais importante ainda se estiver combinado com um Centro de Atenção Psicossocial, por exemplo. Na dependência química, a regra da boa abordagem é integrar.

GP - Para os usuários, conversar com pessoas que também tiveram esse problema ajuda a sair desse universo?

MR - Ajuda, forma uma corrente para frente.

Você imagina um cara que ficou fazendo ginástica e viveu o mundo da academia por 20 anos. Na hora em que ele resolve sair desse mundo, é claro que, nos primeiros momentos, o assunto que ele tem para trocar é o mundo da academia, o aparelho, a gíria, a música, o método... Esse é o mundo dele.

O usuário, quando sai, tem a cultura do consumo. Ou ele tem pares para compartilhar isso de maneira acolhedora, que não instigue a fissura, ou vai acabar usando. Esse é o referencial dele, o mundo dele.

GP - O Estado oferece tratamento gratuito?

MR – Sim, o SUS [Sistema Único de Saúde] oferece. O que pode começar pelos Caps [Centros de Atenção Psicossocial], que são estruturas mantidas pelo Município. São Paulo tem 25 Caps, espalhados em todas as regiões da cidade. O ideal é que as pessoas comecem a procurar ajuda nos Caps.

O Cratod tem um Caps e o que a gente chama de “Emergência Recomeço”, que é uma triagem na qual os casos mais agudos também podem ser avaliados.

A partir de uma avaliação de risco, feita pela equipe da enfermagem, e do acolhimento multidisciplinar, esse paciente pode ser encaminhado tanto para observação médica quanto para um Caps da sua região.

O Programa Recomeço disponibiliza para todo o estado de São Paulo 1.173 leitos para desintoxicação, que é aquele momento das primeiras quatro semanas. E oferece aproximadamente 2.100 camas em unidades terapêuticas.

O paciente que passa pelo Cratod pode ser encaminhado para uma comunidade terapêutica – que não é mais tratamento médico, e sim acolhimento social, voluntário –, pode ser encaminhado para tratamento, para desintoxicação ou pro Caps. E, certamente, depois da desintoxicação, depois da comunidade, ele vai para o Caps. O Caps é o grande gerenciador da estratégia de tratamento de usuários.

GP - E as clínicas particulares? Como as famílias devem avaliá-las?

MR - A gente não conhece muito essas clínicas. Acho que as famílias tem que ter preocupação em ver se a clínica é inspecionada pela vigilância sanitária; é importante conhecer a equipe, procurar indicações. Infelizmente, tem muita clínica mal intencionada. É importante conhecer.

GP - Internação compulsória: como e quando deve ser feita?

MR - A Lei da Saúde Mental categorizou o que é internação voluntária, internação involuntária e internação compulsória. A voluntária é aquela em que o paciente se propõe à internação e o médico também acha que essa é a melhor indicação. A involuntária é quando há indicação médica e anuência da família, ou de um responsável. Na compulsória há indicação médica, mas não a figura do responsável legal. Nesse caso, o serviço aciona o Ministério Público, que aciona o juiz, que diz: “Este indivíduo está em situação de alta vulnerabilidade, não tem responsável legal e o Estado deve assumir o cuidado com ele”. A internação compulsória é uma medida protetiva, quando aplicada nos termos da lei. Então, é necessária.

Um adolescente psicótico na rua, que já não consegue entender o que está acontecendo com ele – e é trazido para um serviço porque se cortou, se automutilou – vai precisar ficar sob proteção médica, sob a proteção de saúde do Estado. Só que ele não consegue informar quem é o seu responsável legal.

A internação involuntária não precisa nem da figura legal. Se o médico entender que a pessoa precisa ser internada... Se esse menino chega à minha atenção médica com a mãe, eu entendo que ele precisa ficar internado, e a mãe concorda e assina junto, eu posso encaminhá-lo para a internação, e o estabelecimento que o receber precisa informar o Ministério Público em 72 horas.

GP - E para as famílias, existem grupos de apoio?

MR - O Programa Recomeço tem uma ação chamada Recomeço Família, que atende famílias independentemente do tratamento do usuário. A família também pode procurar grupos de ajuda mútua que atendam especificamente a ela. Assim como é importante para os usuários estar entre pares, para a família é importante ter o referencial de outros familiares: o que fazer, receber aconselhamento, trocar experiências, todas as situações importantes para a recuperação.

Existe em São Paulo um movimento chamado Faces e Vozes da Recuperação, formado por usuários que conseguiram atingir uma recuperação estável e se propõem a quebrar o anonimato e contar suas histórias. É importante, porque dá o outro lado, de quem já atravessou esse momento tempestuoso.

GP - Caso um cidadão veja alguém em estado psicótico na rua, tem como ajudar?

MR - Se perceber que está psicótico, gritando, agitado, sem roupa, o ideal é chamar o Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência], chamar uma ambulância para que possa ser removido e encaminhado para o pronto-socorro mais próximo.

Rodrigo Luiz Pakulski Vianna

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